
MUDO
O NARCISISMO É A FADIGA DO EU
APRESENTAÇÃO
"Mudo" é um espetáculo de dança e arte conceitual que visa a construção de um auto-retrato para explorar questões sobre as imagens técnicas.
Por meio da interação com uma instalação de vídeo interativa, realizada em um circuito fechado, uma performance solo explora as vertentes mais comuns que categorizam os fenômenos imagéticos criados por aparelhos, como nossa formação enquanto sujeitos atravessados por imagens em diversos canais, a determinação de nossos corpos primariamente definidos por discursos imagéticos e nosso encontro desafiador com a presença de uma suposta auto-imagem gerada por programas e computadores.
O autorretrato é comumente um veículo de mudança do ideal que fazemos sobre nós mesmos e ocorre no silêncio da construção de nossas subjetividades. Este projeto põe em evidencia um registro coreográfico que assume este aspecto como norte principal. O interprete de “Mudo” experimenta a ambivalência deste termo ao se deparar com sua representação em cena gerada por epiciclos de transmissão de vídeos criados ao vivo a partir de sua performance. O público presente assistirá a uma fragmentação da performance no tempo de exposição do espetáculo que remeterá ao formato de um espelho infinito composto por camadas de espelhamento que veiculam tempos distintos, cada qual influenciando a cena presente. Dessa maneira, os movimentos passados permeiam a cena presente e podemos ver o desenvolvimento de uma coreografia que se auto-refere ao passo que busca se desconstruir. Um experimento performático que busca expor as diferentes presenças e pesos entre o virtual e o presencial.
O intuito de realização de “Mudo" parte da pesquisa de imagem e movimento alimentada pelo coreógrafo Bruno Gregório, bailarino do "Balé da Cidade de São Paulo", e o artista visual João Pacca, curador do festival de videoarte “VideoRio”. Juntos, eles exploram os mecanismos hipnóticos da imagem gerada a partir de programas para promover um diálogo sobre a inversão das funções imagéticas, o que em seu vocabulário apontam como principal significado para a palavra idolatria. O ponto de maior relevância em sua busca por examinar esse fenômeno recorre sobre o precário acervo de críticas sobre o poder persuasivo e transformador da imagem, principalmente em tempos de inteligência artificial. Como lidar com imagens quando as vemos de maneira tão realista a ponto de não mais criticá-las como fenômenos da representativos? Atualmente, nossa relação com o real se confunde com o imaginário de fotografias, videos e universos inteiramente criados por uma inteligência artificial. Reconhecer que tais imagens não são janelas para realidade é fundamental para uma postura lúcida frente aos movimentos da qual fazemos parte.
É necessário se ver e este espetáculo questiona tal habilidade em diversos campos.
O que acontece quando você se vê se vendo?
NARRATIVA
as imagens apresentadas na sessão narrativa foram produzidas por João Pacca
“Mudo" é um solo de dança elaborado por meio da relação entre intérprete e uma instalação de videoarte.
A orientação estética que norteia a proposta coreográfica pesquisa por movimentos imediatos que irrompem de reflexos primários ou reações imediatas. Esta experimentação se define como processo minimalista perseguindo o estado de repouso e plenitude de cada ação investida pelo intérprete. Com isso, procuramos emancipar de qualquer censura, a performance elaborada pelo bailarino em cena - que lida com posicionamento e temática prévias, mas assiste a si mesmo no decorrer do espetáculo para propor movimentos desenhados em cada apresentação.
O espetáculo é sumariamente dividido em três partes que exercitam uma gramática de gestos desenvolvidas em consideração ao fluxo de imagem existente no palco.
Assim, resumimos em capítulos os seguintes horizontes de movimentação:

ATO 1
“Você Precisa”
Corpo amorfo, sem identidade aparente, uma unidade caótica em que percebemos um corpo humano sem cabeça, apresenta o bailarino supostamente nu, sem a designação de seu gênero, retorcido em si, girando em seu próprio eixo curvado em que apenas sua espinha é aparente. Tal qual uma célula meristemática capaz de incorporar qualquer função e característica, o corpo em cena torna-se uma tela por onde uma bombardeio de imagens ressoam sobre a tela.
Ao passo que vislumbramos diversos timbres de vídeos - entre documentários, propagandas, filmes célebres, notícias e dados - o personagem sem persona começa a lançar seus membros no espaço tal qual movimentos expandidos de incomum reflexos desafiando nossa idéia de estrutura corpórea.
Inversões do comum posicionamento do corpo humano são explorados.
União com a imagem, dando suporte ao que esta sendo exibido, oferecendo as partes do corpo para desmembrar e fragmentar as imagens vigentes.
A mensagem que se busca emitir tem a significar com nossos sensos mais comuns de lógica e tornar evidentes comodatos visuais e narrativas fundamentais que podem ser reconsideradas.


Após os primeiro discernimento narrativos de imagens familiares, nosso solo toma novo seguimento e o bailarino em cena passa a se relacionar com imagens “reais" que documentam a divisão celular da célula mais relevante ao contato: a célula neural.
O cosmo nervoso do corpo humano é o responsável pelo princípio ativos da comunicação de todas as partes do corpo indivíduo e o corpo coletivo. O sujeito em cena, começa a explorar a pulsação de sua presença ao compor um regimento de batidas e impulsos contra seu próprio corpo em concomitância as gravações de microscópios eletrônicos que evidenciam os instantes de conexão entre uma célula nervosa e seu entorno.
Comunicar-se é imprescindível.
Somos partes de um mesmo fenômeno tal quais gotas de de água na chuva. A individualidade é a maior ilusão sobre o “Eu”.
Eis uma única e simples projeção da palavra “EU" é projetada sobre o corpo do bailarino intérprete.
Ele começa a se movimentar pelo espaço do teatro levando consigo a palavra e por manipulando sua presença no espaço através de seu corpo.
Lygia Clarck dizia que nossa imagem não podemos ver nosso rosto; que este apenas poderíamos percebe-lo. Diante de tal afirmação, o bailarino procura pelo “EU" projetado, movimentando todas as partes a procura de um domínio. A sutileza do movimento provoca e instiga a leveza da projeção, sua dificuldade de defini-la e principalmente de apreendê-la. Movimentos repetitivos vão coordenando a exaustão forjada, a palavra some, junto a luz e a primeira queda do intérprete em cena ocorre imediatamente.

Uma instalação luminosa toma forma de letreiro, assumindo uma linguagem referente as instalações de Jenny Holzer. Podemos ler, passando pelo corpo do bailarino, uma carta escrita por Lygia Clarck a seu filho . Enquanto as palavras encontram a boca de cena e seguem seu caminho ao topo do teatro, o intérprete se move a solavancos de queda assistida por si próprio, afim de provocar impactos e choques contra o espaço em que irrompe.


ATO 1I
“DE VER”
O segundo momento do espetáculo é marcado pela interação entre intérprete e uma instalação de vídeo interativa realizada em circuito fechado. Neste momento da apresentação, a dinâmica de movimento assume uma postura totalmente colaborativa com a imagem projetada. O videoarte "EU", mostrado abaixo, demonstra o mecanismo utilizado no palco

Uma câmera posicionada em justaposição ao projetor começa a gravar os movimentos do intérprete que assiste a um quadrado de luz projetado no palco tal qual um objeto flutuante. A interação do bailarino com a forma que se estabelece lembra a relação com uma caixa flutuante que emoldura um lugar no espaço sem definição.

Momentos após o exercício de exploração da espacialidade geométrica condecorada pela primeira projeção, um programa que conecta câmera ao aparelho realiza a primeira transferência de gravação ocorrida desde o instante que podemos observar o quadrado de luz ser projetado.
Público e bailarino passam a observar os instantes da performance anterior enquanto permanecem sendo gravados. O bailarino, enquanto intérprete criativo do espetáculo, está livre realizar qualquer movimento e instigamos o performer a se condicionar a exploração momentânea, imediata, visceral e oportuno do momento em que se encontra, trazendo ao espetáculo doses de improvisação que formarão um repertório de movimento único a cada apresentação.

Assim como no instante anterior, mais uma vez vemos a transmissão da gravação vigente durante a primeira observação do cenário realizado pelas interações entre bailarino e projeção. Neste momento, já é possível observar a três camadas temporais interagindo ao mesmo tempo, formando um desenho que nos remete aos espelhos infinitos, sem, no entanto, se tratar de um espelho.
O que vemos operar em cena é um vídeo composto pela gravação de um momento anterior, em que outros vídeos se encontravam presentes. Neste processo, que ira ocorrer inúmeras outras vezes, o bailarino constituirá um verdadeiro corpo de baile virtual, formando uma coreografia pautada pela memória de seus gestos, presentes e transpostos em imagens, por vezes concretas e por vezes fantasmagóricas. O jogo de sombras de luzes redefine o padrão espacial do palco e vemos todo o contexto físico ser direcionado pela movimentação presente que pensa o passado e o futuro em gestos rizomáticos.
O videoarte, "iDOLATRIA" - colaboração entre João Pacca e o coreógrafo Manuel Gomes - foi inteiramente construído a partir desta instalação de vídeo em circuito fechado e interativo e demonstra o método que aplicamos no palco, por meio de uma performance gravada em 2020.

ATO 1II
“LÁGRIMAS”
Corpo e tecnologia se encontram na memória.
O último ato do espetáculo é um ode a transcendência que ocorre na transferência de nossa experiência corpórea a outros campos mais distantes que nossa presença pontual e geográfica, como em mídias de mensagens eletrônicas que se realizam em rede por todas as partes.
O que é ser humano transcende o corpo físico, apesar de tê-lo como ponto de partida. O que nos conecta está em campos de expressão de idéias que formam e deformam imagens tanto visuais, quanto cognitivas e sonoras.

Tendo essas questões em mente, começamos o último momento da apresentação com a alegoria de uma lágrima, como sintoma humano que conecta a todos, traduzindo a vulnerabilidade como nosso maior instrumento de conexão para que haja comunicação. A performance do intérprete toma iniciativas contemplativas com a instalação vigente que passa a receber uma projeção de mar que aos poucos toma a forma de um oceano de pixels. Ele ativa a instalação por seu movimento, cada vez mais calmo, despindo-se da endumentária que carregou durante a apresentação e mesclando-se ao mar de pontos luminosos como que facilitando o surgir de um céu de estrelas a partir do registro de mar que escurece até o desaparecer completo e apresentar o corpo do bailarino em estado meditativo, idêntico ao início da apresentação, porém, iluminado por uma infinidade de pontos cintilantes, meio digital, meio luz.

CENÁRIO
concepção e referências
Orientado por um senso minimalista que evidencia o protagonismo de dois elementos em oposição no palco - uma instalação de videoarte e a presença do bailarino - a cenografia propõe uma redoma que remete a um casulo, ou casca, fazendo com que o intérprete performe em espaço etéreo, sem demarcações. Desde a boca de cena, uma tela transparente é usada como plano para recepção para projeções, oferecendo perspectiva tridimensional do espetáculo, a referência de instalações usadas em apresentações de Claire Bardainne e Adrien Mondot.
As projeções serão responsáveis por grande parte das ocorrências sobre o cenário.

bob wilson
O cenário é criado a partir da uma casca feito uma redoma, sem bordas nem limites. Fazendo com que o intérprete esteja numa tela totalmente branca. Desce na boca de cena uma tela transparente invisível aos olhos mas que usada com projeções dando a visão tridimensional da cena usando a referencia da instalação de Claire Bardainne e Adrien Mondot onde você tem a oportunidade de conviver a experiência de um balanço entre o antes e depois, uma metarmofose da imagem e na matéria .
Surge uma gota no centro do palco e que vai aumentando muito imperceptivelmente até se torna um lençol de água, um mar de pixel . Mar Imagem Miragem .
Direção de arte composta e elaborada em colaboração com Mira Andrade.

Olafur Elison

Xóchitl González Quintanilla

Xóchitl González Quintanilla

Ryoji Ikeda
ILUMINAÇÃO
A luz constrói o espaço visual borrando as fronteiras entre tela e palco.
O desenho colabora com a projeção protagonista e possibilita observar a movimentação do performer.
A ocorrência de luzes diretas estabilizam a presença do bailarino em cena e o jogo de luzes refletidas criam nuances e degradês que expandem o senso de temperatura e luminosidade projetados sobre a tela em cena.

Etta Lilienthal


Daniele Abbado

Wessel Freek
Trilha
A imagem sonora é apresentada pelo programa de trilha e musicalidade de Leandro Lima.
Compondo acordes orgânicos que sintetizam experiências íntimas do corpo, o musicista acolhe frases célebres e as desconstrói ao ponto de uma nova construção totalmente inédita.
Os tons elaborados correspondem ao timbre de referências de Ann Annie e Henrik Goreck. A trilha de mudo é desenhada como um dueto entre estranhamento e harmonia. Abaixo, músicas que compõe nosso acervo de pesquisa musica e permeiam a órbita sonora do espetáculo.
Figurino



João Pimenta
João Pimenta
João Pimenta
Pensamos o figurino como uma extensão do trabalho cenográfico e videoartístico do projeto.
Desenhado sob medida para enaltecer a movimentação do intérprete, partimos de pressupostos geométricos monocromáticos para construir uma tela sobre o corpo do bailarino em cena. Pensamos em estudar as formas de alfaiataria para emular a desconstrução dos arquétipos de gênero sobre a formação do sujeito e trabalhar com tecidos leves que possam se anexar ao pano que recobre todo o cenário.
O pensamento sobre a indumentária tangencia símbolos e acessórios sutis que remetem a símbolos consagrados sobre internação e imersão, como camisas de força - com cintos e amarrações que provocam leituras de aprisionamento e libertação, ao passo que vemos o performer despir camadas durante a apresentação - e batas e vestidos - que fazem clara referência a sacerdotes e performances meditativas.
O pensamento minimalista do espetáculo pode encontrar aqui a única dinâmica barroca que se opõe a esterilidade dos demais objetos físico para evidenciar um corpo pulsante.
Figurino composto e elaborado por João Pimenta.