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a figura translucida e semi-transparente de um homem nu, performada pelo artista João Pacca frente ao local de uma mata aparentemente fechada e retratada em preto e branco. Os raios solares brilhantes invadem a cena por frestas entre folhas, galhos, troncos e uma vegetação sem identidade, nos lembrando apenas o ambiente natural de uma floresta.

MULTIVERSO
2013 // rio de janeiro

POR JANE MACIEL

Notas sobre o ensaio fotográfico de João Pacca e Marcelo Carrera.

o corpo nu
é o corpo da dobra

o que sobra
depois
e antes
de tudo o que cobre

 

adereços

Dentro de uma mata ou em uma cachoeira o corpo nu se apresenta em um estado misto de epifania e mimetismo. Corpo-água ou corpo-pedra. A fluidez e a rigidez intercalam o movimento desse corpo-forma que o ensaio fotográfico de  João Pacca e Marcelo Carrera produz e apresenta. Produção porque este corpo nu performa frente ao aparelho fotográfico, compartilhando a cena com intensa cumplicidade. Apresentação porque o objeto estético – fotografia – materializa e nos faz ver em preto e branco essa vivência íntima do humano na natureza, ou vice-versa. Poderíamos dizer que tais imagens tentariam justamente diluir esta separação tão moderna, rígida e purista.

Multiverso libera o corpo nu não para ser mais um elemento na paisagem, mas para ser a paisagem, ou ainda, encarnar na paisagem fotográfica. Este corpo também resignifica a divisão de gêneros, uma vez que o adjetivo “masculino” não parece abarcar totalmente a sua presença (mesmo se o desenho dos músculos enrijecidos nos remeta a alguma ideia de masculinidade). Ao fundir-se com água tal corpo veste-se deste feminino líquido e pode também assumir sua forma fluida. Por outro lado, no mesmo ensaio vemos este corpo transfigurar-se em outros estados: animalesco, apreensivo ou mesmo arredio, escondendo-se ou estando prestes a dar um bote.

O escuro desse ambiente coloca-nos em uma atmosfera onírica e por vezes quase mítica, como nos indica as poucas fotos nas quais o corpo está ausente – intervalos desse sonho trêmulo – e mais ainda, como confirmam aquelas nas quais o corpo aparece. Pois quando nos deparamos com uma enorme queda d’água, com seus níveis rochosos e uma figura apoiada na pedra, com a água caindo e escorrendo por seu corpo, não vemos necessariamente um “homem”, mas um “ser” que habita esse mundo, que esteve ali por um momento e que só podemos ver pela fotografia. O espelhamento desta imagem abre uma fenda ao meio, que faz convergir o movimento das águas, por onde nosso olhar pode penetrar.

Em Multiverso são os processos que estão em jogo. Não se trata de uma visada documental da natureza e/ou do humano nela, nem tampouco uma relação “instrumental” do corpo humano na fotografia de paisagem[1]. É sobretudo uma experimentação de territorialização nesse ambiente natural, na qual o corpo – nu – pode inclusive fundir-se ou ensaiar seu desaparecimento etéreo, seja pela subexposição que enfatiza as zonas pretas nas fotos, pelo desfoque proposital ou ainda pelo movimento que faz do corpo um borrão fugidio.

A fotografia da queda d’água precipitando sobre um dorso evoca uma intenção quase ritual deste banho. O encontro da água com o corpo propicia uma rachadura no seu movimento e espessura, e forma na poça d’água nervuras impressas como asas brancas decaídas, ilustrando metaforicamente que a queda é movimento natural da vida e que nela pode estar contida a sua potência. Essa figura decaída parece inerte e ao mesmo tempo guarda o prenúncio do seu próximo movimento. O ritmo descendente da água complementa-se à iminência do levantar-se, ao passo que a foto nos aparece sonora, em alguma medida, aquele zunido da pressão da queda d’água na cabeça. Ou som das nossas próprias quedas. Despir-se e se entregar como exercício de liberdade.

João Pacca se encontra na ponta de uma pedra, sobre seus joelhos e rosto escondido, a figura em preto e branco parece se contorcer numa performance que semelhante a de um animal anfíbio
João Pacca se encontra numa pedra, sobre seus joelhos e rosto escondido.
João Pacca se encontra numa pedra, sobre seus joelhos e rosto escondido, a figura em preto e branco parece se contorcer numa performance que semelhante a de um animal anfíbio
Uma figura humana retorce sua pose que parece assentar sobre si mesma. Em um ambiente escuro e liquefeito, cuja parte iluminada apresenta apenas a base de uma queda d'agua, se encontra o artista João Pacca escondendo seu rosto e borrando as linhas de seus contornos no que seria a fotografia em lenta exposição.
Imagem abstrata de João Pacca descendo uma correnteza de agua. Fotografia em preto e branco.
foto em preto e branco de uma cachoeira abstrata
liquido brilhante corta o centro da imagem em preto e branco de caracter abstrato. Os tons super contrastados insunuam um ambiente liquefeito. João Pacca aparece ao fundo inferior da imagem com semblante inigmático que sugere dor e prazer ao mesmo tempo.
João Pacca é apresentado nesta fotografia em preto e branco no meio de um ambiente florestal, carregando um objeto abstrado que insinua um gesto em movimento. Em relação a este objeto, observamos a presença líquida de uma substancia  que parece partir o rosto do artista em três partes identicas. A atmosfera de misterio se justifica pela incapacidade de determinar tanto os acontecimentos quanto suas propriedades.
O performer e artista João Pacca, surge nessa imagem em preto e branco carregando uma fonte de substancia líquida em movimento internso que parece promover uma rajada cortante que cruza a imagem partindo o rosto do performer em duas partes. Há, com isso, uma desfiguração do rosto humano que nos permite significar novos formatos semelhantes a esqueletos e fantasmagorias diversas.
Fotografia em preto e branco. Imagem abstrata apresenta uma figura em branco que parece estar em movimento. A relação de fotografias tende a reflexão sobre um objeto casulo. Texturas que estão no entorndo do objeto lembram minerais e vegetais. O movimento parece centrípeto. O performer em cena é João Pacca que elaborou essa imagem.
Fotografia em preto e branco, sub-exposta, mostra um cenário florestal com pequena queda d'agua ao fundo superior da imagem que traz em seu centro uma figura humana que performa um objeto branco cuja forma lembra um tecido. Em movimento circular, a textura tecido do objeto branco parece acompanhar um gesto promovido pelo performer João Pacca.
Fotografia em preto e branco, sub-exposta, mostra um cenário florestal com pequena queda d'agua ao fundo superior da imagem que traz em seu centro uma figura humana que performa um objeto branco cuja forma lembra um tecido. Em movimento circular, a textura tecido do objeto branco parece acompanhar um gesto promovido pelo performer João Pacca.
Fotografia em preto e branco, sub-exposta, mostra um cenário florestal com pequena queda d'agua ao fundo superior da imagem que traz em seu centro uma figura humana que performa um objeto branco cuja forma lembra um tecido. Em movimento circular, a textura tecido do objeto branco parece acompanhar um gesto promovido pelo performer João Pacca.
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